O PAISANO E EU

O  importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora

(Mia Couto)

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Nasci numa cidade do interior, no Sul , onde o Brasil termina e começa o Uruguai.  Lá o Pampa se estende até o horizonte e encosta o céu; de lá não via o mar. Nada relacionado ao mar fazia parte de mim naqueles tempos da infância.  Nunca imaginaria que um veleiro seria um dia a minha casa. Aquela geografia  fez de mim o que sou e foi preciso muita coisa acontecer – e des-acontecer – para que agora eu vivesse a bordo de um deles.

Tudo  começou há 17 anos quando o Artur, com quem sou casada, decidiu  e iniciou a construção de um veleiro. O gosto por veleiros foi herança de seu pai que através de muitas leituras aprendeu e ensinou que existia um mundo de águas, ventos e céus, mas que nunca conheceu. Seduzido por isso e para viver esse mundo o Artur começou a construção do ‘Paisano’. Construiu ele próprio toda a embarcação, estudou todas as etapas, pensou e repensou  as escolhas, observou as possibilidades e dificuldades, pesquisou materiais e colocou as mãos habilidosas na execução desse desejo.

Enquanto isso, enquanto o ‘Paisano’ tomava forma, criávamos dois filhos e vivíamos a vida dividindo nosso tempo entre os prazeres do amor e educação desses dois meninos, entre as responsabilidades profissionais e as responsabilidades de nossas vidas individuais; ora com avanços, ora com recuos. Durante esse  período o Artur também tornou-se capitão amador e obteve experiências através de ‘delivery’ (traslados para entregas de veleiros).

Por alguma razão a  construção do ‘Paisano’ levou o tempo certo dos filhos se tornarem adultos, seguirem  seus caminhos e, então, sentirmos a necessidade de  reinventar e redescobrir a vida .

Foi aí que olhamos o ‘Paisano’ como a possibilidade de uma nova vida e há mais de dois anos deixamos nossa casa  em Porto Alegre para viver em Tapes, uma tranquila cidade às margens da Lagoa dos Patos, no Clube Náutico Tapense, para que o ‘Paisano’  nos fosse ensinando com paciência ( mais a mim que ao Artur)  a arte de  viver a bordo.

Pretendemos sair do Rio Grande do Sul para subir a costa do Brasil tão logo possamos e os bons ventos permitirem. Não sabemos quando será, o ‘Paisano’ nesses dois anos me ensinou  muitas coisas e uma delas é: tempo, tempo, tempo …

A  primeira lição do ‘Paisano’, e que logo aprendi, foi que eu precisava saber o que  sou  e  o que  não sou na tripulação. Aprendi que as minhas muitas limitações seriam meu maior trunfo na organização de meu espaço. Quando me entendi pude organizar, também, todos os espaços do ‘Paisano’. Não foi difícil.

Chegada em Rio Grande

Agora já organizados – Paisano, Artur e eu – partimos de Tapes para Rio Grande onde aguardaremos outros tempos.

Dia 2 de outubro, três meses depois da chegada a Rio Grande, o Paisano zarpou para Florianópolis onde chegou, dia 4 de outubro – 51 horas depois -, num tempo recorde para um veleiro de 28 pés.

Você pode nos acompanhar lendo meus relatos e navegando no blog.

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Foto de Marcos Carvalho Ramos